Ao buscar uma psicóloga em Passo Fundo ou iniciar uma psicoterapia online, talvez uma das perguntas que apareça seja: por que eu me sinto assim?
Por que algumas situações nos mobilizam tanto?
Por que uma crítica pode provocar uma reação enorme em uma pessoa e quase nenhuma em outra? Por que algumas pessoas sentem muita culpa quando dizem não? Ou ficam ansiosas diante de conflitos, têm dificuldade para pedir ajuda ou sentem que precisam dar conta de tudo?
Nem sempre a resposta está apenas naquilo que aconteceu hoje.
Na Terapia Sistêmica, compreender um sintoma também significa conhecer a história e o contexto em que ele aparece. Ansiedade, medo, culpa, raiva, dificuldade para estabelecer limites ou determinados conflitos podem ter relação com experiências atuais, mas também com formas de sentir, pensar e se relacionar que foram sendo aprendidas ao longo da vida.
E parte dessa história começa antes de nós.
É aqui que entra a transgeracionalidade: o olhar para padrões, relações, crenças, papéis e formas de lidar com a vida que podem atravessar diferentes gerações de uma família.
Isso não significa que nossa família determina quem somos ou que todo sofrimento atual começou nas gerações anteriores.
Significa ampliar a pergunta.
Em vez de olhar apenas para “como faço esse sintoma parar?”, podemos também tentar compreender: por que estou me sentindo assim? O que essa reação pode contar sobre minha história? E o que conhecer essa história me permite fazer diferente hoje?
O que é transgeracionalidade na Terapia Sistêmica?
Toda família constrói formas de viver e se relacionar.
Aprendemos, muitas vezes sem perceber, como demonstrar carinho, reagir diante de conflitos, cuidar das pessoas, estabelecer limites, pedir ajuda e lidar com sentimentos.
Também construímos referências sobre trabalho, dinheiro, casamento, maternidade, sexualidade, separações, perdas e tantas outras experiências da vida.
Algumas dessas aprendizagens são ditas claramente.
Outras aparecem nas relações.
Talvez ninguém tenha dito que tu precisa cuidar de todo mundo, mas tu cresceu vendo as mulheres da tua família assumirem essa função.
Ninguém precisou dizer que demonstrar tristeza era sinal de fraqueza se, durante toda a infância, as pessoas ao teu redor enfrentavam dificuldades enormes sem conversar sobre aquilo que sentiam.
Pode existir uma família em que os conflitos são discutidos aos gritos e outra em que ninguém fala sobre o que incomoda.
A transgeracionalidade ajuda a olhar para essas continuidades e perceber como algumas formas de se relacionar podem atravessar gerações.
Isso não significa que vamos necessariamente repeti-las.
Mas elas participam das referências que construímos sobre aquilo que entendemos como normal, seguro, perigoso ou esperado dentro das relações.
E o que a transgeracionalidade tem a ver com os sintomas?
Tem bastante, mas não explica tudo.
Quando uma pessoa chega à terapia dizendo “eu sou muito ansiosa”, por exemplo, saber que existe ansiedade é importante. Mas ainda sabemos pouco sobre como aquela ansiedade acontece.
Quando ela aparece?
O que costuma acontecer antes?
Aumenta diante de conflitos? Quando existe possibilidade de decepcionar alguém? Quando a pessoa precisa tomar uma decisão? Quando sente que perdeu o controle de alguma situação?
E podemos ampliar ainda mais.
Como essa família lidava com medo, erros e incertezas?
Existia espaço para pedir ajuda?
Era permitido discordar?
Era necessário estar sempre atenta ao humor das pessoas ao redor?
Quem costumava cuidar de quem?
Essas perguntas não procuram culpar a família pelo sintoma.
Elas ajudam a compreender por que determinadas situações podem produzir respostas emocionais tão intensas hoje.
Um sintoma não precisa ser visto apenas como alguma coisa que está “errada” e precisa desaparecer. Ele também pode ser uma pista importante para compreendermos o que está acontecendo.
Por que sentimos o que sentimos?
Essa pergunta não costuma ter uma resposta única.
Pensa em uma pessoa que sente muita culpa toda vez que estabelece um limite.
Talvez a dificuldade não esteja apenas em aprender uma frase melhor para dizer “não”.
Pode existir uma história em que amor e disponibilidade estiveram muito misturados. Em que cuidar significava estar sempre disponível. Em que mulheres que priorizavam as próprias necessidades eram consideradas egoístas.
Nesse contexto, estabelecer um limite hoje pode mobilizar muito mais do que aquela situação específica.
Racionalmente, a pessoa sabe que pode dizer não.
Emocionalmente, talvez aquele “não” esteja acompanhado do medo de decepcionar, perder afeto ou deixar de ser reconhecida como uma pessoa boa.
Quando conseguimos compreender essa história, o sintoma ganha contexto.
E isso pode mudar a maneira como trabalhamos com ele.
Padrões familiares podem atravessar gerações
Na Terapia Sistêmica, especialmente nas perspectivas transgeracionais, observamos como alguns padrões relacionais podem aparecer ao longo de diferentes gerações.
Uma família pode atravessar gerações com mulheres assumindo praticamente toda a responsabilidade pelo cuidado.
Outra pode ter dificuldade para falar sobre sentimentos.
Pode existir uma história de rompimentos familiares diante de conflitos, relações muito próximas com dificuldade para estabelecer limites, medo de contrariar figuras importantes ou uma expectativa enorme de desempenho.
Mas famílias não existem fora da sociedade.
Por isso, olhar para gerações anteriores também significa considerar as condições concretas em que aquelas pessoas viveram.
Pobreza, racismo, desigualdades de gênero, migração, violência, condições de trabalho, acesso à educação, direitos e acontecimentos históricos também participam das histórias familiares.
Às vezes, aquilo que hoje parece um padrão difícil de compreender foi um recurso possível em outro contexto.
Conhecer esse contexto não significa que precisamos continuar repetindo.
Compreender nossa história não significa culpar nossa família
Esse cuidado é fundamental.
Conhecer nossa história não deveria servir para encontrar uma pessoa responsável por tudo aquilo que sentimos hoje.
Nossas famílias também receberam histórias, valores, recursos e limitações das gerações anteriores.
Uma mãe pode ter muita dificuldade para demonstrar afeto porque também cresceu em uma família em que carinho não era demonstrado.
Isso pode ajudar a compreender essa relação.
Mas compreender não significa negar o impacto que essa ausência teve.
Podemos reconhecer as condições que participaram da construção de determinado comportamento e, ao mesmo tempo, reconhecer o sofrimento que ele produziu.
Para mim, essa é uma das contribuições mais importantes de olhar para a transgeracionalidade: entender de onde algumas coisas podem ter vindo sem acreditar que precisamos continuar repetindo.
O sintoma pode contar uma história?
Às vezes, sim.
Uma pessoa que está constantemente alerta pode ter aprendido, em determinados contextos, que precisava observar tudo ao redor para se proteger.
Quem evita conflitos pode ter vivido experiências em que discordar trazia consequências muito difíceis.
Alguém que tenta controlar cada detalhe pode ter construído essa forma de agir em contextos marcados por muita imprevisibilidade.
Mas isso não significa que toda ansiedade, dificuldade de comunicação ou necessidade de controle tenha origem na história familiar.
Saúde mental é complexa.
Aspectos biológicos, condições sociais, trabalho, acontecimentos recentes, relações atuais, experiências difíceis e muitos outros fatores podem participar daquilo que sentimos.
A transgeracionalidade é uma parte dessa compreensão, não uma explicação universal.
Como compreender a transgeracionalidade pode ajudar na terapia?
Porque aquilo que conseguimos reconhecer pode deixar de parecer simplesmente uma característica inevitável nossa.
Existe uma diferença entre pensar:
“Eu sou assim.”
e conseguir perceber:
“Eu aprendi a reagir assim em determinadas situações.”
A segunda possibilidade abre espaço para outras perguntas.
Isso ainda me protege?
Ainda preciso assumir esse papel?
O que acontece quando tento fazer diferente?
Quais recursos eu tenho hoje que as gerações anteriores talvez não tivessem?
O que quero preservar da minha história?
E o que não quero continuar repetindo?
É aqui que compreender o passado começa a fazer sentido para o presente.
Não olhamos para nossa história familiar apenas para descobrir de onde vieram nossos problemas. Olhamos também para reconhecer recursos, compreender aquilo que sentimos e ampliar as possibilidades de escolha que temos hoje.
O genograma e a compreensão da história familiar
Uma das ferramentas que utilizo na Terapia Sistêmica é o genograma.
Ele ajuda a organizar informações sobre diferentes gerações de uma família e observar relações, acontecimentos importantes, aproximações, afastamentos, conflitos, perdas e padrões que aparecem ao longo do tempo.
Mas não se trata apenas de construir uma árvore genealógica.
Dependendo daquilo que estamos trabalhando, podemos observar como as mulheres da família se relacionaram com trabalho e maternidade, como diferentes gerações lidaram com conflitos, quais pessoas assumiram responsabilidades de cuidado, como aconteceram separações ou quais assuntos parecem difíceis de conversar.
O objetivo não é olhar para o genograma e concluir: “pronto, descobrimos de onde veio teu problema”.
É construir hipóteses.
Talvez exista uma relação entre aquilo que encontramos e o sofrimento atual. Talvez não.
Na terapia, vamos construindo essa compreensão com cuidado, considerando aquilo que faz sentido para a história de cada pessoa.
Compreender por que sentimos é uma parte do processo
Eu gosto muito de olhar para o contexto porque ele ajuda a responder uma pergunta importante: por que isso faz sentido para mim?
Mas compreender por que sentimos o que sentimos é uma parte do processo.
Depois podemos pensar: o que eu faço com isso agora?
Talvez tu compreenda que aprendeu a evitar conflitos porque, durante muito tempo, essa foi uma maneira de se proteger.
Hoje, porém, o silêncio pode estar dificultando teus relacionamentos.
Talvez tu entenda por que aprendeu a assumir tantas responsabilidades e, ao mesmo tempo, perceba que continuar dando conta de tudo está te deixando exausta.
A história ajuda a compreender como algumas formas de sentir e agir foram construídas. O presente nos permite trabalhar outras possibilidades.
Não conseguimos mudar aquilo que aconteceu nas gerações anteriores e nem todas as condições que atravessam nossa vida hoje.
Mas podemos conhecer melhor essa história, reconhecer os recursos que já construímos e experimentar novas formas de nos posicionar diante dela.
Terapia Sistêmica em Passo Fundo e online
Como psicóloga em Passo Fundo, trabalho a partir da Terapia Sistêmica e gosto especialmente de compreender como história, relações, contexto e transgeracionalidade podem participar daquilo que sentimos hoje.
Na psicoterapia, os sintomas são importantes. Mas eu não quero saber apenas o que tu está sentindo.
Quero compreender contigo quando isso aparece, por que pode estar aparecendo, quais histórias podem estar relacionadas a esse sofrimento e o que podemos construir a partir dessa compreensão.
Sou Francieli Teixeira, psicóloga, CRP 07/39825, especialista em Terapia Sistêmica e mestre em Psicologia. Realizo psicoterapia presencial em Passo Fundo/RS e atendimento psicológico online para pessoas de diferentes lugares do Brasil.
Se tu percebe que algumas emoções, conflitos ou formas de se relacionar continuam se repetindo e quer compreender melhor essa história, pode entrar em contato pelo WhatsApp para conhecer meu trabalho e agendar um horário.
Referências
BOWEN CENTER FOR THE STUDY OF THE FAMILY. Multigenerational Transmission Process. Material sobre o processo de transmissão multigeracional na Teoria de Bowen.
BOWEN CENTER FOR THE STUDY OF THE FAMILY. Differentiation of Self. Material sobre diferenciação do self e funcionamento emocional familiar.
BOWEN, Murray. Family Therapy in Clinical Practice. New York: Jason Aronson, 1978.