Quando uma mulher está exausta, qual costuma ser a resposta?
Organize melhor tua rotina.
Aprenda a dizer não.
Faça atividade física.
Durma mais.
Reserve um tempo para ti.
Muitas dessas estratégias podem ajudar. O problema é quando tratamos a sobrecarga feminina como se fosse apenas uma dificuldade individual de organização, manejo emocional ou construção de limites.
Às vezes, estamos ensinando uma mulher a administrar melhor uma rotina que já tem responsabilidades demais.
Essa foi uma das reflexões importantes da minha dissertação de mestrado sobre divisão sexual do trabalho e saúde mental de mulheres em cargos de gestão.
Mas é também uma questão que encontro na clínica e que ultrapassa os cargos de liderança.
Quando falamos sobre saúde mental das mulheres, precisamos conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo: reconhecer as condições sociais e relacionais que produzem sofrimento e construir recursos para lidar com a vida que existe hoje.
Nem todo problema de saúde mental começa dentro da pessoa
A Psicologia pode cometer um erro importante quando tenta explicar individualmente sofrimentos que também são produzidos pelas condições em que vivemos.
Uma mulher pode estar exausta porque tem dificuldade para estabelecer limites.
Mas também pode estar exausta porque trabalha muitas horas, recebe mensagens profissionais fora do expediente, assume a maior parte das responsabilidades domésticas e ainda é a principal responsável pelo cuidado das pessoas da família.
As duas coisas podem coexistir.
Por isso, olhar para o contexto não significa negar aspectos individuais.
Significa não reduzir toda a explicação a eles.
Antes de perguntar apenas “por que essa pessoa não consegue lidar melhor com isso?”, também podemos perguntar:
o que ela está precisando suportar?
Não podemos ensinar alguém a respirar melhor e ignorar que falta ar
Eu gosto dessa ideia porque ela resume uma questão importante da minha forma de compreender a Psicologia.
Estratégias individuais têm valor.
Respiração pode ajudar na regulação da ansiedade. Atividade física pode contribuir para a saúde mental. Descanso importa. Construir limites pode transformar relações.
Mas nenhuma dessas estratégias deveria servir para adaptar indefinidamente as pessoas a condições que continuam produzindo sofrimento.
Uma empresa não promove saúde mental apenas oferecendo uma palestra sobre manejo do estresse enquanto mantém jornadas excessivas e disponibilidade permanente.
Da mesma maneira, não faz sentido dizer para uma mulher “se priorizar” sem olhar para quem divide com ela as responsabilidades domésticas e de cuidado.
Às vezes, o problema não é falta de autocuidado.
É falta de condições para cuidar de si.
Então a pessoa não pode fazer nada enquanto a realidade não muda?
Pode.
E esse ponto é muito importante para mim.
Reconhecer que existem desigualdades, condições de trabalho ruins ou relações familiares difíceis não significa acreditar que somos completamente passivas diante delas.
Eu não consigo, dentro de uma sessão de psicoterapia, mudar uma organização inteira ou resolver a desigualdade de gênero.
Mas posso trabalhar com a pessoa que está diante de mim.
É aqui que entra uma ideia muito presente na minha prática: corresponsabilidade.
Se existe uma realidade que produz sofrimento, precisamos reconhecê-la.
Depois podemos perguntar: diante dessa realidade, quais recursos temos hoje? O que conseguimos modificar? Onde é possível estabelecer um limite? O que precisa ser conversado? Quais responsabilidades podem ser redistribuídas? Onde precisamos pedir ajuda? E quais situações talvez exijam decisões maiores?
Contexto e corresponsabilidade não são ideias opostas.
Para mim, precisam caminhar juntas.
Na psicoterapia, podemos trabalhar aquilo que está ao nosso alcance
Quando a sobrecarga aparece na clínica, o trabalho não precisa se limitar a encontrar maneiras de suportá-la melhor.
Podemos trabalhar culpa, comunicação, construção de limites, relações familiares e conjugais, redes de apoio e divisão de responsabilidades.
Também podemos olhar para algumas perguntas difíceis.
Por que eu sinto que preciso dar conta de tudo?
O que acontece quando peço ajuda?
Consigo delegar uma responsabilidade inteira ou continuo administrando mentalmente aquilo que outra pessoa está executando?
O que temo que aconteça quando digo não?
Quais responsabilidades realmente são minhas?
Quais fui assumindo ao longo da vida?
E o que hoje tenho condições de fazer diferente?
Não existe uma resposta pronta para essas perguntas.
A história, os recursos e as condições concretas de cada pessoa são diferentes.
Mas compreender o contexto pode nos ajudar a escolher melhor onde é possível intervir.
Dentro de casa, “ajudar” não é a mesma coisa que dividir responsabilidades
Essa diferença parece pequena, mas não é.
Quando uma pessoa é responsável por perceber o que precisa ser feito, organizar tudo e depois pedir que alguém execute uma tarefa, a responsabilidade continua sendo dela.
A outra pessoa ajuda.
Dividir responsabilidades significa que mais de uma pessoa consegue perceber, planejar e executar aquilo que mantém a vida cotidiana funcionando.
Isso vale para limpar a casa, comprar comida, acompanhar a vida escolar das crianças, marcar consultas, cuidar de familiares e tantas outras tarefas.
Quando uma mulher precisa administrar tudo e as outras pessoas apenas aguardam instruções, parte importante do trabalho continua invisível.
Por isso, redistribuir o trabalho doméstico e de cuidado também pode ser uma questão de saúde mental.
As organizações também são responsáveis pela saúde mental no trabalho
A mesma lógica vale para o ambiente profissional.
Não podemos falar de saúde mental no trabalho olhando apenas para a capacidade de cada pessoa administrar o próprio estresse.
Organizações constroem condições de trabalho.
Políticas de equidade, transparência salarial, limites de disponibilidade, distribuição adequada de responsabilidades, espaços de apoio e relações de trabalho respeitosas podem contribuir para ambientes mais sustentáveis.
Isso também exige olhar para as desigualdades de gênero dentro das próprias organizações.
Quem ocupa os cargos de liderança?
Quem recebe as oportunidades de crescimento?
Quem assume tarefas de cuidado e mediação dentro das equipes?
Quem pode ser firme sem ser considerado agressivo?
Quem precisa provar repetidamente que é competente?
Saúde mental no trabalho também passa por essas perguntas.
E precisamos de políticas públicas
Existe ainda uma dimensão que não pode ser resolvida apenas dentro das famílias ou empresas.
Se queremos falar seriamente sobre igualdade de gênero e saúde mental, precisamos falar sobre políticas públicas de cuidado.
Creches, educação pública, serviços de saúde, políticas de proteção social, licença parental e serviços destinados às pessoas idosas e com deficiência, por exemplo, interferem diretamente na maneira como as responsabilidades de cuidado são distribuídas.
Quando o Estado não oferece uma rede suficiente, esse trabalho não desaparece.
Alguém precisa fazê-lo.
E historicamente sabemos sobre quem grande parte dessa responsabilidade costuma recair.
Por isso, saúde mental também é uma questão social e política.
Não precisamos escolher entre olhar para a sociedade ou para a pessoa
Talvez esse seja o ponto central.
Podemos reconhecer que uma mulher vive em uma sociedade desigual sem tratá-la como alguém sem possibilidade de escolha.
E podemos trabalhar mudanças individuais sem fingir que todos os problemas dependem exclusivamente da força de vontade.
Uma coisa não anula a outra.
Como psicóloga, meu trabalho é compreender a pessoa dentro da vida que ela realmente vive.
Isso significa olhar para história, relações, gênero, trabalho e condições sociais.
E depois perguntar junto com ela:
diante de tudo isso, o que podemos construir agora?
Psicóloga em Passo Fundo e atendimento online
Sou Francieli Teixeira, psicóloga, CRP 07/39825, especialista em Terapia Sistêmica e mestre em Psicologia. Minha pesquisa de mestrado investigou a divisão sexual do trabalho e a saúde mental de mulheres em cargos de gestão e liderança.
Esse percurso também faz parte da forma como trabalho na clínica: compreender o sofrimento sem separar a pessoa das relações e condições em que vive, mas também construir recursos para aquilo que pode ser transformado.
Realizo psicoterapia presencial em Passo Fundo/RS e atendimento psicológico online para pessoas de diferentes lugares do Brasil.
Se tu sente que está sustentando responsabilidades demais, tem dificuldade para estabelecer limites ou percebe que trabalho, relações e cuidado estão atravessando tua saúde mental, pode entrar em contato pelo WhatsApp para conhecer meu trabalho e agendar um horário.
Este conteúdo parte de reflexões da minha pesquisa de mestrado e da minha formação em Psicologia e tem finalidade informativa. Não substitui cuidados profissionais.