O que muda na vida das mulheres quando elas chegam a cargos de liderança?
Durante muito tempo, ocupar espaços de gestão e decisão esteve entre as principais reivindicações relacionadas à igualdade de gênero no trabalho. E ampliar a presença de mulheres nesses espaços continua sendo fundamental.
Mas chegar até eles não significa, necessariamente, deixar para trás as desigualdades que historicamente organizam a vida e o trabalho das mulheres.
Foi a partir dessa inquietação que desenvolvi minha dissertação de mestrado em Psicologia, “Divisão Sexual do Trabalho e Saúde Mental de Mulheres em Cargos de Gestão”.
Na pesquisa, conversei com mulheres que ocupavam posições de gestão e liderança no Rio Grande do Sul para compreender suas trajetórias profissionais, relações de trabalho, responsabilidades fora dele e como essas experiências poderiam repercutir na saúde mental.
E uma das questões que atravessou toda a pesquisa foi justamente essa contradição: uma mulher pode ocupar um espaço de poder dentro de uma organização e continuar submetida a expectativas bastante tradicionais sobre aquilo que significa ser mulher.
O trabalho das mulheres não termina quando o expediente acaba
Para compreender essa discussão, precisamos falar sobre divisão sexual do trabalho.
Historicamente, homens e mulheres não foram responsabilizados da mesma maneira pelo trabalho remunerado, doméstico e de cuidado.
Enquanto aos homens foi atribuído prioritariamente o espaço público, o trabalho remunerado e a provisão financeira, às mulheres foram associadas as responsabilidades domésticas, o cuidado com crianças e pessoas idosas e a manutenção da vida cotidiana.
Muita coisa mudou.
As mulheres entraram no mercado de trabalho, ampliaram sua escolarização, construíram carreiras e passaram a ocupar posições que antes eram quase exclusivamente masculinas.
O problema é que a redistribuição do trabalho doméstico e de cuidado não aconteceu necessariamente na mesma velocidade.
Por isso, muitas mulheres passaram a ocupar também o espaço público sem deixar de ser responsabilizadas pelo privado.
Não é apenas fazer. É lembrar que precisa ser feito.
As mulheres que participaram da minha pesquisa haviam construído trajetórias profissionais importantes. Eram gestoras, lideravam equipes, tomavam decisões e ocupavam posições de responsabilidade dentro das organizações.
Mas a vida profissional não existia separada de todo o resto.
As responsabilidades do trabalho coexistiam com demandas domésticas, familiares e de cuidado.
E existe uma parte desse trabalho que dificilmente aparece quando contamos quantas tarefas cada pessoa realiza.
É lembrar.
Antecipar.
Organizar.
Perceber o que está faltando.
Pensar no que precisa ser feito amanhã.
Administrar horários, necessidades e responsabilidades para que a vida cotidiana continue funcionando.
Essa é uma dimensão importante da carga mental.
Não basta perguntar quem levou uma criança ao médico. Podemos perguntar também quem percebeu que precisava marcar a consulta, encontrou um horário, lembrou do compromisso e reorganizou a rotina para que aquilo acontecesse.
Não basta saber quem foi ao mercado. Quem percebeu que estava faltando comida?
Quando uma pessoa precisa executar algumas tarefas e também administrar mentalmente o funcionamento da casa e da família, a responsabilidade não está realmente dividida.
Quando o trabalho termina, mas a disponibilidade continua
A sobrecarga também apareceu dentro do trabalho.
Cargos de gestão envolvem responsabilidades, tomada de decisões, resolução de problemas e relações com muitas pessoas.
Nas experiências relatadas pelas participantes, apareceu uma sensação de disponibilidade constante e a necessidade de permanecer atenta às demandas da equipe e da organização.
Quando essa disponibilidade profissional encontra uma vida fora do trabalho que também exige organização e cuidado, sobra pouco espaço para não ser responsável por alguma coisa.
O autocuidado vai ficando para depois.
O descanso fica para depois.
O lazer fica para depois.
E esse “depois” nem sempre chega.
O que tudo isso tem a ver com saúde mental?
Tem muito.
Nas experiências das mulheres entrevistadas apareceram exaustão, ansiedade, irritabilidade, hipervigilância, esgotamento e dificuldade de priorizar o próprio cuidado.
Isso não significa que toda mulher em um cargo de liderança vai adoecer ou que exista uma relação simples de causa e efeito entre liderança e sofrimento psicológico.
Saúde mental é muito mais complexa.
Mas também não podemos olhar para uma mulher exausta diante de uma rotina atravessada por inúmeras responsabilidades e concluir apenas que ela precisa aprender a administrar melhor seu tempo.
A saúde mental não acontece fora da realidade.
Trabalho, renda, gênero, relações familiares, condições materiais, responsabilidades de cuidado e possibilidades de descanso participam da maneira como vivemos e podem participar também da maneira como adoecemos.
Por isso, quando o sofrimento aparece, precisamos perguntar sobre o sintoma, mas também sobre a vida em que esse sintoma está acontecendo.
Ocupar um cargo de liderança não significa deixar de precisar provar competência
Outra questão que apareceu na pesquisa foi a necessidade de legitimar a própria posição.
As participantes falaram sobre cobranças, necessidade de demonstrar resultados e atenção à maneira como se posicionavam.
Ao mesmo tempo, sobre as mulheres continuam recaindo expectativas de cuidado, disponibilidade, sensibilidade e acolhimento.
Isso pode produzir uma posição bastante complexa.
É preciso exercer autoridade, mas determinadas formas de exercer essa autoridade podem ser avaliadas de maneira diferente quando partem de uma mulher.
É preciso entregar resultados, mas também cuidar das relações.
É preciso ocupar um espaço de poder convivendo com expectativas sociais sobre como uma mulher deveria se comportar.
E isso também exige trabalho emocional.
Cuidar das pessoas pode ser uma competência. O problema é quando vira obrigação.
Eu não queria construir uma pesquisa que apresentasse essas mulheres apenas a partir do sofrimento.
As participantes também demonstraram satisfação com suas trajetórias, reconhecimento das próprias conquistas e desejo de construir formas diferentes de exercer a liderança.
Em alguns relatos, ocupar esses espaços significava abrir caminhos para outras mulheres, fortalecer redes de apoio e construir relações profissionais mais acolhedoras.
Cuidado, escuta e atenção às relações podem ser recursos muito importantes para uma boa liderança.
O problema aparece quando deixam de ser possibilidades e se transformam em expectativa.
Uma mulher não deveria precisar assumir a responsabilidade pelo bem-estar emocional de todas as pessoas ao seu redor para ser considerada uma boa líder.
Quando isso acontece, uma competência relacional pode se transformar em mais uma tarefa.
Estar em um espaço de poder não significa estar fora das relações de gênero
Essa é uma das reflexões que mais ficaram comigo depois da pesquisa.
Uma mulher pode construir uma carreira reconhecida, liderar muitas pessoas, tomar decisões importantes e ocupar espaços que outras mulheres de sua família talvez nunca tenham tido a oportunidade de ocupar.
E ainda chegar em casa sendo a pessoa que precisa lembrar o que falta na geladeira.
As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
É justamente essa contradição que precisamos enxergar.
A presença das mulheres em cargos de liderança é uma conquista importante. Mas igualdade não significa apenas conseguir chegar a esses espaços.
Também precisamos perguntar em quais condições as mulheres conseguem permanecer neles e qual preço têm precisado pagar para dar conta de tudo.
Compreender a saúde mental das mulheres exige olhar simultaneamente para a pessoa, suas relações, trabalho e contexto social.
Psicoterapia para mulheres em Passo Fundo e online
Minha pesquisa de mestrado também atravessa a forma como compreendo saúde mental na clínica.
Sou Francieli Teixeira, psicóloga, CRP 07/39825, mestre em Psicologia e especialista em Terapia Sistêmica. Minha dissertação investigou a divisão sexual do trabalho e a saúde mental de mulheres em cargos de gestão e liderança.
Quando uma mulher chega ao consultório exausta, ansiosa, culpada ou sentindo que precisa dar conta de tudo, não quero olhar apenas para o sintoma.
Quero compreender em qual contexto esse sofrimento aparece.
Como está o trabalho? Como as responsabilidades estão distribuídas? Quais expectativas atravessam suas relações? Existe espaço para descanso? O que essa mulher sente que precisa sustentar?
É a partir dessa compreensão que podemos pensar também em possibilidades de mudança.
Realizo psicoterapia presencial em Passo Fundo/RS e atendimento psicológico online para pessoas de diferentes lugares do Brasil.
Se tu percebe que trabalho, sobrecarga e responsabilidades de cuidado têm atravessado tua saúde mental, pode entrar em contato pelo WhatsApp para conhecer meu trabalho e agendar um horário.
Este conteúdo foi construído a partir das reflexões e resultados da minha dissertação de mestrado em psicologia e tem finalidade informativa.