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Um diagnóstico não conta toda a sua história

21 de julho de 2026 Francieli Teixeira 4 min de leitura

Uma reflexão sobre por que a <strong>escuta da história</strong> e o contexto sistêmico devem preceder a rotulagem, com exemplos e orientações para quem busca terapia.

Um diagnóstico não conta toda a sua história

Como psicóloga, uma das coisas que considero mais importantes no início da terapia é conhecer a história da pessoa que está sentada na minha frente.

Isso não significa que diagnósticos não sejam importantes. Eles podem ajudar a compreender sintomas, orientar tratamentos, facilitar a comunicação entre profissionais e, em muitas situações, até trazer alívio para quem passou muito tempo sem entender o que estava acontecendo.

O problema aparece quando o diagnóstico deixa de ser uma informação sobre aquela pessoa e passa a ser a explicação para tudo o que ela sente, pensa ou faz.

Ninguém começa a existir depois de receber um diagnóstico.

Antes dele, existe uma história.

O diagnóstico é uma parte da compreensão, não a pessoa inteira

Ansiedade, tristeza, dificuldade para estabelecer relações, irritabilidade, medo ou exaustão não acontecem no vazio.

Quando alguém chega à terapia, eu quero entender quando aquela dificuldade começou, o que estava acontecendo naquele período, como são suas relações, quais experiências marcaram sua história, como está o trabalho, quais são suas condições de vida e quais recursos essa pessoa tem hoje.

Também existem questões sociais e culturais que atravessam nossa saúde mental.

Gênero, raça, classe social, sexualidade, condições de trabalho, acesso a direitos, experiências de violência e redes de apoio podem fazer diferença na forma como vivemos e enfrentamos determinadas situações.

Olhar para tudo isso não significa negar fatores biológicos ou a existência dos transtornos mentais. Significa reconhecer que nossa saúde mental é complexa demais para ser compreendida a partir de uma única explicação.

Por que conhecer a história é tão importante?

Duas pessoas podem apresentar sintomas parecidos e estar vivendo experiências completamente diferentes.

Uma dificuldade para dormir, por exemplo, pode aparecer em diferentes transtornos, mas também pode estar relacionada a uma situação de luto, sobrecarga no trabalho, conflitos familiares, preocupações financeiras ou a um período específico de mudança.

Isso não significa que podemos descobrir a causa de todo sofrimento simplesmente conhecendo a história de alguém. Nem sempre existe uma causa única.

A história ajuda a construir hipóteses.

E hipóteses são diferentes de sentenças.

Na Terapia Sistêmica, buscamos ampliar o olhar para compreender não apenas aquilo que a pessoa sente, mas também as relações e os contextos em que essas experiências acontecem.

Como faço isso nas primeiras sessões?

Nas primeiras sessões, costumo fazer muitas perguntas.

Quero conhecer o motivo que trouxe a pessoa até a terapia, mas também entender um pouco de sua história, relações importantes, família, trabalho, acontecimentos marcantes e aquilo que já tentou fazer para lidar com a dificuldade.

Não existe a obrigação de contar a vida inteira nas primeiras consultas. Algumas coisas aparecem rapidamente; outras precisam de vínculo, segurança e tempo.

Também podemos utilizar recursos da Terapia Sistêmica, como o genograma, para conhecer melhor a história familiar, relações importantes e acontecimentos que atravessaram diferentes gerações.

O objetivo não é procurar no passado uma explicação pronta para tudo o que acontece hoje. É conhecer os caminhos que ajudaram a construir aquela história e, a partir disso, pensar no que ainda faz sentido, no que produz sofrimento e no que pode ser diferente.

E onde entra o diagnóstico?

Quando existe um diagnóstico ou quando é importante investigar essa possibilidade, ele também faz parte do processo.

Um diagnóstico bem realizado pode ser muito importante. Pode orientar decisões clínicas, indicar a necessidade de avaliação de outros profissionais e ajudar na escolha de estratégias de tratamento.

Mas ele não deveria ser utilizado para limitar uma pessoa.

“Eu sou assim porque tenho ansiedade.”

“Ela faz isso porque tem TDAH.”

“Essa pessoa nunca vai conseguir porque é autista.”

Essas explicações parecem facilitar a compreensão, mas podem reduzir histórias muito complexas a uma única característica.

Um diagnóstico pode ajudar a entender dificuldades e necessidades específicas. O que ele não consegue fazer sozinho é explicar quem uma pessoa é, como suas relações foram construídas ou quais possibilidades ela terá ao longo da vida.

Compreender também não significa justificar tudo

Esse é um cuidado que considero muito importante.

Conhecer a história de uma pessoa pode nos ajudar a compreender por que determinados comportamentos foram construídos. Mas compreender não significa justificar qualquer comportamento.

Uma pessoa pode ter vivido relações muito difíceis e, ainda assim, precisar olhar para a maneira como trata as pessoas ao seu redor.

Pode ter aprendido a evitar conflitos ficando em silêncio e hoje perceber que isso dificulta suas relações.

Pode ter um diagnóstico que explique determinadas dificuldades e, ao mesmo tempo, precisar construir recursos para lidar com elas.

É aqui que contexto e corresponsabilidade precisam caminhar juntos.

Não escolhemos muitas das experiências que fazem parte da nossa história. Também não temos controle sobre todas as condições sociais, familiares e materiais que atravessam nossa vida. Mas podemos olhar para os recursos disponíveis hoje e pensar no que é possível construir a partir deles.

O que observar ao procurar psicoterapia?

Mais do que procurar uma profissional que seja contra ou a favor de diagnósticos, eu considero importante encontrar alguém que consiga olhar para eles com responsabilidade.

Tu pode perguntar sobre a abordagem utilizada, como funciona a avaliação inicial e de que maneira a profissional compreende a relação entre diagnóstico, história e contexto.

Também é importante perceber se existe espaço para perguntas e se tu consegue participar ativamente da construção do processo terapêutico.

A psicoterapia não precisa escolher entre ciência e singularidade. Um cuidado responsável pode considerar evidências científicas, critérios diagnósticos e estratégias de tratamento sem esquecer que existe uma pessoa, uma história e um contexto que não cabem inteiros em nenhuma classificação.

Realizo atendimentos presenciais em Passo Fundo e psicoterapia online para pessoas de diferentes lugares do Brasil. Se tu quer conhecer meu trabalho ou iniciar um processo terapêutico, pode entrar em contato pelo WhatsApp para agendar um horário.


Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui uma avaliação psicológica personalizada.

Referências

ALLEN, J.; BALFOUR, R.; BELL, R.; MARMOT, M. Social determinants of mental health. International Review of Psychiatry, v. 26, n. 4, p. 392–407, 2014.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: World Health Organization, 2022.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. Geneva: World Health Organization, 2024.

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